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Entre a vida e o tempo: a rotina da Enfermagem na emergência do Trauma

A cena de um paciente sendo transportado às pressas pelos corredores do 1º andar do Hospital da Restauração (HR), no Recife, é comum. Nas primeiras horas da manhã de uma sexta-feira, um maqueiro e o enfermeiro Jener Kardec Filho pediam licença enquanto transportavam um paciente entre uma das salas de Tomografia e a Sala Vermelha da Emergência Geral. Em situação crítica, o paciente precisava de assistência imediata.

Horas antes, o homem havia sido encontrado desacordado em casa, no município de Triunfo, que fica a 400km de distância da capital pernambucana. Por causa da gravidade, precisou ser transferido para o Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra, referência em alta complexidade.

Boa parte desse cuidado é feito por uma categoria essencial para assistência: a Enfermagem, que é fundamental na composição da equipe multidisciplinar dentro da emergência. Na semana que se celebra o trabalho desses profissionais, a reportagem acompanhou a rotina de quem atua diariamente salvando vidas.

Enfermeiros e técnicos estão próximos desde a chegada do paciente até os cuidados contínuos depois da estabilização. “Esses profissionais atuam na assistência direta, que inclui a monitorização dos sinais vitais, as manobras em caso de parada cardíaca ou auxiliando nas manobras de intubação. Mas também organizam a dinâmica da sala, na preparação de equipamentos, fazendo a articulação entre as equipes envolvidas no atendimento”, explica a superintendente de Enfermagem do HR, Melissa Castro.

É a rotina do enfermeiro Jener Kardec Filho há 27 anos. “É essencial que o profissional tenha a formação técnica, seja especialista em Emergência e em Terapia Intensiva, mas também tem de ter vocação, porque é um trabalho estressante, que exige atenção. Na Sala Vermelha do Trauma, o tempo é extremamente valioso. A gente tem de ser rápido, mas com presteza, para minimizar os erros e os danos”, diz Jenner, que sempre atuou em emergências e se divide entre os plantões no HR, onde coordena a equipe, e a sala de aula.

Entre alarmes sonoros dos equipamentos, macas e decisões tomadas em segundos, a Emergência Geral revela um trabalho que vai muito além do que está à vista. “Somos muitos dentro do setor. Mas cada um sabe exatamente o que tem de fazer. É um trabalho que ocorre de forma integrada, seguindo os protocolos, com um único objetivo”, explica Jener, quase sem pausa para conversar com a reportagem. No Hospital da Restauração atuam cerca de 5 mil trabalhadores, dos quais a maior parte deles é de Enfermagem.

UM PROTOCOLO QUE COMEÇA NA EMERGÊNCIA – Enquanto a Emergência Geral pulsa em ritmo acelerado, com alarmes de monitor e vaivém de macas, a Equipe de Doação de Órgãos e Tecidos (EDOT) divide o mesmo espaço em outro registro: com passos lentos, fichas nas mãos e um olhar clínico voltado para uma possibilidade que poucos se permitem enxergar no calor da crise.

É a busca ativa de potenciais doadores de órgãos e tecidos. Um trabalho marcado pelo paradoxo: nasce da tragédia para gerar vida. As enfermeiras da equipe de transplantes acompanham de perto os casos de pacientes em estado neurológico grave. Quando identificado um potencial doador, começa um protocolo criterioso, conduzido com rigor técnico e também com a sensibilidade construída na experiência diária.

“A abordagem é o momento mais delicado de todo o processo, porque, antes de abrir o protocolo, a gente já acolhe a família, falando sobre a gravidade e a possibilidade de (a pessoa) estar em morte encefálica. Só ao final de tudo a gente oferece à família a oportunidade da doação de órgãos. Então, quando a família consegue enxergar o valor da doação, apesar de toda a dor, é grandioso”, explica Cláudia Moura, enfermeira dedicada à doação de órgãos há 16 anos, enquanto avaliava mais uma paciente à beira do leito.

Da habilidade técnica da Enfermagem à escuta silenciosa da equipe de transplantes, o que une esses profissionais é a consciência de que, ali, cada segundo tem consequências reais. É esse trabalho conjunto que salva vidas todos os dias.

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